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Fangio tinha razão
Fangio tinha razão
Papo Ligeiro com Rafael Ligeiro
Automobilismo é um esporte fascinante. Trata-se de uma atividade capaz de gerar cenas dignas de produções cinematográficas hollywoodianas de primeira linha! No entanto, sem roteiro, no puro improviso - pelo menos, até onde sabemos. Veja, por exemplo, a sensacional disputa entre Hélio Castroneves e Scott Dixon nos metros finais das 300 Milhas de Chicago, última etapa da temporada 2008 da Indy Racing League. O brasileiro assegurou a segunda vitória no ano com - pasme! - apenas um milésimo de segundo de vantagem ao rival da Oceania. Em tempo, vale ressaltar que a classificação do certame de Tony George em 2008 não fugiu muito desse enredo de equilíbrio. Dixon levou o caneco com 646 pontos, somente 17 a mais que Helinho.
É claro que a IRL já teve campeonatos cuja diferença entre campeão e vice foi bem menor que a desse ano. Em 2005, Sam Hornish Jr. e Dan Wheldon empataram na pontuação; Hornish ficou com o título pois somou mais vitórias que o britânico ao longo do campeonato. Contudo, em dados momentos de 2008, Dixon abriu tamanha vantagem aos adversários na tabela de pontos que dava a impressão de que faturaria o triunfo facilmente. Até com etapas de antecedência. Prova disso é que neozelandês chegou a Sonoma, palco da antepenúltima corrida do ano, nada menos que 78 pontos à frente de Castroneves.
Embora a conquista tenha ficado em boas mãos, afinal, Dixon mostrou-se constante ao longo de todo o campeonato e o piloto com maior número de primeiros lugares - seis em 17 corridas, não seria pretensão alguma afirmar que o tão desejado caneco escapou das mãos de Helinho por meia volta.
Meia volta?! Como assim? Aí vai a explicação.
Na prova realizada no Kentucky, o brasileiro da Penske amargava posições apenas intermediárias quando a equipe decidiu apostar numa estratégia de pit stop diferenciada dos rivais. O jogo deu certo e Helinho pulou para a liderança. Contudo, com pouco combustível no carro, o piloto teve de aliviar consideravelmente o ritmo nas voltas finais. Na metade do último giro, acabou ultrapassado por Dixon. Salvou um segundo lugar. Resultado muito bem recebido pelo piloto e, especialmente, pela equipe Penske que, naquele fim de semana, penava na busca por um acerto razoavelmente competitivo aos seus carros.
Contudo, o panorama no Kentucky "definiu" o campeonato em favor de Dixon. Afinal, com um triunfo - que esteve bem perto, naquela etapa, Helinho pularia de 629 a 639 pontos, três a mais que o piloto da Chip Ganassi.
Tal episódio lembrou-me ao que ocorreu com o italiano Riccardo Patrese no GP do Brasil de 1991. O italiano sobrava na segunda colocação da corrida quando o carro do líder, Ayrton Senna, passou a apresentar problemas no câmbio. Pouco a pouco, as marchas do McLaren número um foram para o espaço. Primeira, segunda, terceira, quarta... Por fim, Senna, apenas com a sexta marcha no monoposto, recebeu a quadriculada em primeiro lugar. Logo a seguir, veio Patrese. Fora um resultado positivo ao italiano, até porque o companheiro de time, Nigel Mansell, não completou a corrida. Mas, assim que saiu do cockpit do Williams, o ex-recordista de GPs na F-1 teve uma surpresa: soube que os tempos das últimas voltas de Ayrton foram altos por conta de problemas mecânicos no McLaren-Honda pilotado pelo brazuca. Riccardo pensava que o tricampeão estivesse "poupando" equipamento e que eventuais ataques seriam respondidos à altura pelo adversário.
De qualquer modo, parabéns ao Helinho, que cumpriu belíssima participação no campeonato 2008 da Indy. Pena só que ele não tenha bola de cristal, pois creio que venderia bem mais caro ao Dixon o primeiro posto em Kentucky. Mas como se não entra em campo - tampouco usa macacão e capacete, resta o velho ditado de Fangio: "Corridas são corridas".
Publicado em: 08/09/2008
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