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Ano novo, erro velho
Ano novo, erro velho
Papo Ligeiro com Rafael Ligeiro
Quem será o “salvador” dos espólios da Honda? Qual será o destino de Bruno Senna: estréia como titular na Fórmula-1, piloto de testes, mais um ano em categoria de base? O sistema de medalhas de Bernie Ecclestone vai engrenar? E o bendito KERS? Eis questões de 2008 que continuam sem respostas nesse ano recém-nascido. Contudo, há algo que me incomoda. Trata-se da esdrúxula comparação entre Lewis Hamilton e Ayrton Senna. Desde o título do inglês na temporada passada, a tese ganha adeptos; seja em artigos de colegas da imprensa automobilística ou até mesmo em fóruns de sites segmentados em esporte a motor.
Claro. É incontestável que existem semelhanças entre esses dois grandes pilotos. Além de carisma fora das pistas, Hamilton preza por uma condução arrojada. Busca ultrapassagens a qualquer instante, independente das condições do traçado, se o ponto de freada está perto ou longe. Em inúmeras ocasiões, dá certo, gera belíssimos instantes aos fãs de automobilismo; vez ou outra, assim como acontecia com Senna, a tocada agressiva na pista rende o viés, com manobras desastrosas e erros aparentemente inexplicáveis. Mas, fato é que comparação é disciplina extremamente complicada. O automobilismo está repleto de fatores que tornam difícil traçar paralelos entre o rendimento de pilotos. Até mesmo em um fim de semana de Grande Prêmio.
Tomem por exemplo pilotos que saem satisfeitos de um treino oficial mesmo após cravar tempo superior ao obtido no treino livre. Há quem possa pensar que se trata de conformismo; ou, até mesmo, maluquice. No entanto, geralmente, houve uma queda na aderência da pista entre as sessões livre, na manhã de sábado, e a classificatória, disputada à tarde. Ou, porque não, nesse intervalo, o time optou por uma estratégia diferente da presente no carro de adversários. Daí, mandou o piloto à pista com um carro repleto de combustível. Só para lembrar, cada 10 litros de gasolina representa um acréscimo de aproximadamente 7,5 quilos no monoposto, algo que gera perda estimada de 200 milésimos de segundo por volta.
Agora, imagine quão complicado é comparar pilotos que correram sob regulamentos diferentes; equipamentos, adversários e pistas distintas.
Alheio às comparações, Lewis Hamilton possui, sem dúvidas, ingredientes para ingressar no rol dos maiores pilotos da Fórmula-1. Com apenas 23 anos, o inglês de Stevenage deve, com certa facilidade, marcar presença nas corridas do certame da FIA por mais uma década. Até por mais umas 15 temporadas. Portanto, terá muito tempo para maturar ainda mais a pilotagem já digna de elogios e incrementar consideravelmente a coleção de troféus, sejam oriundos de vitórias em GPs ou de títulos. A concorrência de gente como Felipe Massa, Fernando Alonso, Robert Kubica, Kimi Räikkönen e outros pilotos da jovem safra que devem evoluir, como Sebastian Vettel e Nelsinho Piquet, é forte. Porém, Lewis tem ao seu favor o fato de estar num time como a McLaren – de onde não deve sair tão cedo. Claro que a escuderia de Woking não está imune a fracassos. No entanto, dada a grandeza da McLaren, tudo leva a crer que resultados ruins serão frutos de fase pouco proliferas, não sinais de decadência.
Se Raul Seixas cantarolava que somos a “metamorfose ambulante”, dessa vez contrario o dito do Maluco Beleza. Mantenho a opinião do texto Gênios não se comparam, publicado em janeiro de 2006, quando o assunto era a comparação entre Michael Schumacher e Ayrton Senna. Melhor que qualquer piloto é “a Fórmula-1, que foi palco para gênios como Senna, Schumacher, Fangio, Clark, Stewart, Lauda, Piquet e Prost”. E agora, Hamilton.
Publicado em: 07/01/2009
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